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Tabus, Tretas e Troças

Por que se afirmar gay ainda é um tabu no futebol masculino?

Caso de Ignacio Lago expõe naturalidade nos afetos e ruptura com o silêncio histórico que traz carreiras interrompidas e o medo que ronda os gramados

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Sílvio Tudela

13/04/2026 às 15:08 - há XX semanas
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A declaração do atacante argentino Ignacio Lago, jovem jogador do Club Atlético Colón, de que se relaciona afetivamente com outro homem, ecoou muito além das fronteiras nacionais. Não somente pelo ineditismo absoluto por ser o primeiro futebolista do país a se posicionar, mas pela raridade quase absurda de fatos como esse e pela naturalidade com o que assunto veio à tona.


					Por que se afirmar gay ainda é um tabu no futebol masculino?
Nacho Lago (dir.) e o namorado quebraram tabu histórico no futebol argentino. Foto: Reprodução / Redes sociais

Em pleno 2026, o futebol masculino profissional ainda trata a homossexualidade como um território e assunto proibido, embora muitos saibam que os gays estão presentes.

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Aos 23 anos e responsável por romper esse tabu histórico, Ignacio Lago, ou Nacho Lago como é chamado pelos argentinos, construiu sua trajetória longe dos holofotes. Nascido na região metropolitana de Buenos Aires, estreou como profissional ainda adolescente, aos 15 anos, pelo Almirante Brown, carregando desde cedo o rótulo de promessa. Passou pelo Talleres (Tiaxcala) e rodou por empréstimos entre Argentina (San Martín e Atlético Rafaela) e México até encontrar no Colón, há dois anos e emprestado, um espaço para se firmar. Nem mesmo a grave lesão no ligamento cruzado, que o afastou dos gramados por oito meses, interrompeu seu caminho. Bancado pelo clube mesmo durante a recuperação, voltou mais forte e hoje, contratado em definitivo, é peça importante no ataque do vice-líder do Grupo A da Segunda Divisão do Campeonato Argentino e agora também protagonista de uma história que ultrapassa o futebol.

Durante sua participação no podcast "Sangre y Luto", que cobre exclusivamente notícias do seu clube, o jogador recebeu uma mensagem em vídeo de seu namorado, o que demonstra que nada era surpresa ou escondido e que o clube e seus jogadores sabiam da relação. Nacho falou com extrema naturalidade e carinho sobre sua relação, sem discursos militantes ou gestos calculados. Foi simples e, talvez por isso mesmo, tão disruptivo. É fato que o que deveria ser banal ainda é visto como um risco porque esse é um daqueles temas que o futebol insiste em empurrar para debaixo do tapete até que alguém o puxe de volta para a luz. E foi exatamente isso que aconteceu com Ignacio Lago.

Pode não haver clara perseguição, mas há apagamento

No futebol feminino, o cenário é outro. Nomes como o de nossa Rainha Marta Vieira da Silva, da estadunidense Megan Rapinoe e da australiana Sam Kerr convivem com naturalidade com suas identidades. Há declarações de amor homossexual por todos os cantos, lugares e esportes. Já no masculino, e principalmente no futebol, porém, o silêncio é quase absoluto.

Os números e fatos que foram divulgados pela imprensa assim que o relacionamento de Ignacio Lago veio à tona ajudam a entender o tamanho do tabu: em quase um século de Copas do Mundo, apenas dois jogadores - o francês Olivier Rouyer (1978) e o alemão Thomas Hitzlsperger (2006) - disseram publicamente que se relacionavam com pessoas do mesmo sexo. E ambos só o fizeram depois de encerrar suas carreiras. O recado, ainda hoje, parece claro, pois falar durante o exercício da profissão pode custar caro.

Casos recentes reforçam essa percepção. O australiano Josh Cavallo, um dos poucos jogadores em atividade a se assumir, viu sua trajetória perder tração após o anúncio público de sua orientação sexual, em 2021. Após defender as seleções de base da Austrália e passar pelo Melbourne City, time mantido pelo Grupo City no seu país, sua carreira foi minguando a tal ponto que ele hoje atua em uma liga equivalente à sétima divisão da Inglaterra. Outros nomes, como o dos estadunidenses Robbie Rogers e Collin Martin, também enfrentaram dificuldades para manter suas carreiras em alto nível após se posicionarem: um deles se aposentou e o outro segue sem time.

No Brasil, o caso mais emblemático é o de Richarlyson, que só falou abertamente sobre sua sexualidade após deixar os gramados. Um padrão que se repete: o armário como estratégia de sobrevivência.

Estruturas que resistem à diversidade

O futebol masculino foi historicamente construído sobre uma ideia rígida de masculinidade. Força, virilidade e agressividade são atributos frequentemente associados a um padrão heteronormativo que exclui tudo o que foge dessa norma. Dentro desse ambiente, a homossexualidade ainda é vista, de forma equivocada, como incompatível com o desempenho esportivo e até mesmo com esses atributos.

Some-se a isso a pressão das arquibancadas, onde cânticos homofóbicos ainda são recorrentes em estádios de todo o mundo, a insegurança de patrocinadores em perder vendas, o receio de dirigentes e a cultura de vestiário, muitas vezes marcada pelo acolhimento silencioso ou pela hostilidade. O resultado é um sistema que não apenas dificulta, mas desestimula qualquer ruptura, como a qual havia no passado com os artistas do cinema e da televisão e hoje é algo totalmente superado.

E então surge a pergunta mais simples e mais reveladora: qual é, de fato, o problema em ser gay e jogar futebol? Do ponto de vista técnico, nenhum. Do ponto de vista humano, menos ainda. Mas, culturalmente, o futebol ainda carrega estruturas que resistem bravamente à diversidade e isso é um profundo sinal de atraso.

O caso de Ignacio Lago pode não representar uma ruptura imediata e não há garantias de que sua carreira seguirá imune às pressões que afetaram outros jogadores. Até porque as manifestações de apoio do clube, colegas de campo e veículos de comunicação foram inúmeras como se pode ver nas redes sociais. Evidentemente não faltaram os haters com os seus discursos de ódio. Mas há algo simbólico e poderoso no gesto de Nacho. Ele não pediu permissão e apenas disse. E talvez seja exatamente isso que o futebol mais precise aprender a ouvir.

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