Entrevista

‘Gilberto Gil se denomina como espírito sambista’, diz pesquisadora Ceci Alves sobre a relação do músico com a religiosidade

Até domingo (26), o iBahia publica uma série de reportagens em homenagem aos 80 anos de Gilberto Gil

Danutta Rodrigues
22/06/2022 às 8h00

10 min de leitura
Gil, o músico jamaicano Jimmy Cliff e Mãe Mirinha do Portão, fundadora do Terreiro São Jorge Filho da Gomeia, localizado em Lauro de Freitas, na Bahia. A foto é em Salvador, em 1980 [Foto: Acervo Gege]

Que Gilberto Gil fala com Deus todos já sabem há bastante tempo, mas como é a relação do artista baiano com a religião, a espiritualidade e ancestralidade? Não é tarefa fácil compreender a cabeça de um gênio, imagina de um “orixá”?

Para Ceci Alves, pesquisadora, cineasta e especialista no assunto Gil, “ele é uma alma que dança, uma alma que flerta, que está ali em comunhão, em conluio, em movimento com a fé, com a crença e com a religiosidade”. Ceci assinou algumas exposições do artista baiano no museu digital Google & Arts, entre elas as relacionadas com o divino.

Foto: Divulgação

Em entrevista ao iBahia, a pesquisadora passeou pela alma do músico e todos os múltiplos entendimentos a respeito do “ser espiritual” de Gil. Não há uma relação formal com a religião, defende Ceci, mas existe uma comunhão natural entre o ser e o divino, muito mais do que existe uma intermediação para que essa comunhão aconteça. Confira abaixo a entrevista completa:

iBahia: Como estudiosa, pesquisadora e conhecedora da história e obra de Gilberto Gil, como você enxerga a relação dele com a religiosidade?

Ceci Alves: “Eu vou fazer jus a algo que ele falou, algo que está lá em uma das exposições [do Google Arts & Culture], Gil se denomina como espírito sambista. O que é que ele quer dizer com isso, com o espírito sambista. É o Alfa e o Ômega, tem o papel de ligar o corpo com o divino. Ele acha ao contrário, ele acha que a religião falhou no seu processo, no seu projeto de religar o humano ao divino. Ele prefere muito mais acreditar que existe um trânsito, que existe uma dança entre o corpo e o divino, existe um entra e sai, existe uma comunhão natural entre o ser e o divino”.

iBahia: Como essa relação é representada na música de Gil?

Ceci Alves: A gente pode ver muito bem refletido na tão famosa música ‘Se Eu Quiser Falar com Deus’, que é a mais evidente. É a música onde ele fala mais dessa relação com o divino. E se você notar, né, a gente percebe muito esse entendimento dele, como se a música toda fosse uma pauta, fosse um ideário dessa percepção dele, com o corpo e a religião, o ser, na verdade, e a religiosidade. O ser e o divino. Na canção ‘Se eu Quiser falar com Deus’ ele fala muito da não intermediação. Ter a alma e o corpo nus. Ele não fala de altar, ele não fala de um terreiro, ele fala que é ele e Deus ali naquela ligação íntima, profunda, direta e amorosa. Então, eu acho que a gente pode classificar a música como esse Alfa e Ômega aí, da percepção de Gil enquanto religiosidade. Ele sempre está falando de fé uma divindade que é maior, que é luz, que é força. Não que ela esteja acima da gente, ou personificando nossas expectativas, ela é conosco.

Quando ele foi preso, ele já era da macrobiótica. Foi então que ele adensou ainda mais essa perspectiva, justamente porque ele queria limpar o corpo para poder receber melhor as inspirações do divino. Ele usava o corpo para se religar com o divino, por isso que eu acho bonito quando ele fala sobre ser um espírito sambista. É a mesma relação que ele tem com a morte. Para ele, a morte é uma coisa muito natural.

Ceci Alves
Exposição virtual ‘A religiosidade em Gilberto Gil’ [Foto: Google Arts & Culture]

iBahia: Em 2020, Gil deu uma declaração polêmica sobre Deus em uma entrevista a um programa de TV. Nela, ele disse que Deus era uma invenção do homem. Pegando como exemplos as canções Procissão e Se Eu Quiser Falar com Deus, podemos dizer que Gil questiona o Deus católico? 

Ceci Alves: Eu não acho que ele questione o Deus católico, posto que ele não se refere a Deus dentro dessa perspectiva da religião. Deus religião não é um combo. Uma música como Procissão, ele fez no início da carreira dele, que ainda estava sob a criação católica dele, no interior do estado da Bahia. É uma coisa cultural muito forte, e aí vem uma outra dimensão dele. Em uma das exposições ele fala que a religião é cultural, que para ele a religião é cultura, na verdade. Então, quando ele faz uma música como Procissão, ele está ali prestando uma homenagem a essa questão cultural, dessa fé atávica do povo, dessa fé em dias melhores, essa fé de que esses dias melhores virão intermediados por um santo, pelo Deus que eles acreditam. Então é muito mais prestar essa homenagem respeitosa do que questionar, ou colocar em ‘xeque’ uma religião. Porque da mesma forma em que ele faz Procissão, colocando a ladainha na música, ele faz outra chamada Iansã, que é dele e de Caetano. Essa música para mim traz uma pauta muito forte do que é esse Gil em relação à religiosidade.

O Deus que ele acredita, o Deus que ele consegue enxergar não é um Deus personificando as expectativas humanas. Aí sim explicaria essa questão da ‘invenção do homem’. Ele não é um Deus tributário das expectativas humanas. É um Deus que é luz, que é transcendência, que está ali conosco.

Ceci Alves

iBahia: A relação de Gil com o candomblé aconteceu já na vida adulta…isso é refletido também na obra dele e em outros projetos, como o mais recente Obatalá. Houve um “marco” para esse envolvimento com o candomblé?

Ceci Alves: Ele sempre coloca o candomblé numa posição muito de apaziguamento. Foi como se o candomblé tivesse apaziguado ele de alguma forma, como se o candomblé tivesse conseguido responder algumas coisas a ele. Mas é isso, se você ouvir a música Iansã, ela foi feita por ali em 1973, quando eles voltaram [Gil e Caetano] do exílio. O candomblé sempre esteve ali rondando, sempre esteve ali presente. Então, não sei se houve exatamente um marco aí, mas tem coisas que são importantes na trajetória dele. Ele é um dos obás de Xangô. Ou seja, ele tem um assento no terreiro, um cargo importante, né, que não é exatamente um cargo religioso, mas cumpre essa função de religioso e político. Então, eu acredito que o candomblé seja assim um atravessamento na vida dele.

Exposição virtual ‘A religiosidade em Gilberto Gil’ [Foto: Google Arts & Culture]

iBahia: Sobre o museu digital do Google lançado na semana passada, você foi uma das pesquisadoras que ficou do início ao fim. Dentro das exposições assinadas por você, quatro dizem respeito à religiosidade. Você poderia falar um pouco delas e como foi essa construção?

Ceci Alves: “Foi uma delícia trabalhar. Foi muito curioso isso porque eu tenho uma relação forte com a religiosidade e Gil sabe disso. Então foi como se fosse um presente e como um reconhecimento da parte de Chris [Fuscaldo], de saber que daria conta dessa interface dele. E assim, é muito massa, muito bonito, porque se você for olhar a trajetória de Gil, de vida, das músicas, de onde ele está, as questões de religiosidade, crença, fé, elas estão permeando sempre a vida dele. Como se fosse um esteio, sabe, como se fosse uma coluna dorsal. E é muito inescapável a forma como ele lida com isso. Porque é como eu falei, é como ele se fosse um corpo que dança entre a espiritualidade, a ancestralidade, e o aqui e o agora. É como se ele fosse um corpo que dança em transcendência e imanência, né. Ele tem uma alma ancestral. Ele falou sobre isso no último show dele aqui em Salvador, dele ser uma alma ancestral. Ele já falou da questão dele ser um orixá e eu vivo chamando ele de orixá sentado, meu griô.

Quando ele fala de morte, ele está falando que esse corpo é matéria, mas que esse corpo já é um prenúncio da vida eterna, sabe. É bem bonito isso sim, como se eu fosse pegando esses sinais, esses indícios e fosse reunindo, sabe, de quem ele é, do que a obra dele traz, da relação dele com a vida, com a família, com as pessoas, com a música, como se eu fosse pensando isso e fosse colocando dentro desse tema, dentro dessa temática. Foi bem intenso.

Ceci Alves

iBahia: Pra você, qual o significado da “Religiosidade em Gilberto Gil”?

Ceci Alves: Tem uma frase em uma das exposições que é como se ele usasse esse portal aí, espiritual, da ancestralidade, da sua própria religiosidade para equilibrar a crueza do mundo, sondando a leveza, sondando alternativas para entender porque que o mundo é tão duro, bruto e cruel, e quais são as saídas para essa crueza, sabe. Eu acho que a religiosidade em Gil é isso. É essa busca pelo além, é essa busca pelo Deus conosco, essa busca pela transcendência estando aqui ainda. É como se ele fosse um balão, como se a alma dele fosse um balão que ele segura na mão. É bem isso. Ele controla e ele não controla.

Ele está seguro por um fio, mas está na mão dele, e com a proposta de ser leve, de tocar o céu. Ele tem sempre isso, né, de tocar o céu, de ser leve, de fazer flutuar, aí ele vai, controla e desce de novo para a terra. É como se a alma dele em relação à espiritualidade fosse isso. Então, eu acho que a religiosidade em Gil é ele segurando esse balão que é a alma dele, sabe, nas mãos, até o dia em que não for mais possível dele segurar, e ele está muito em paz com isso.

Ceci Alves

As quatro exposições virtuais relacionadas à religiosidade de Gil, assinadas por Ceci Alves, são “A religiosidade em Gilberto Gil”, “Misticismo e ciência em Gilberto Gil”, “Africanidades” e “Eu não tenho medo da morte”.

Gilberto Gil [Foto: Rodrigo Imas – @rodrigoimasphotos]

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