Daqui a duas semanas, quando o Rio já estiver transpirando Olimpíada, turistas e moradores de Londres deverão aproveitar as tardes de verão para conhecer o recém-inaugurado tobogã da torre AcelorMittal Orbit. Ao mesmo tempo em que visitantes do mundo todo buscarão um lugar ao sol na concorrida orla de Barcelona e crianças de Atlanta se refrescarão nas fontes do Centennial Park. O que esses prosaicos programas têm a ver com a maior evento esportivo do mundo, que acontecerá na América do Sul pela primeira vez, de 5 a 21 de agosto? Tudo.O brinquedo londrino, o calçadão catalão e a praça americana são exemplos de legados de edições dos Jogos que se tornaram novas atrações para as cidades-sede. O que esses lugares são hoje é o que todos esperam que sejam, no futuro, obras como o Museu do Amanhã, a Orla Conde ou Complexo Esportivo de Deodoro, por exemplo: equipamentos urbanos que beneficiem a população local e acabem atraindo ainda mais visitantes.Antes do Rio, 41 outras cidades já receberam edições de Jogos Olímpicos (22 de verão, 19 de inverno). E, em todas elas, o evento deixou heranças das mais diversas, como novos hotéis, áreas revitalizadas, redes de transportes públicos, infraestrutura e, claro, atrações turísticas.O complexo esportivo de Pequim, com os arrojados Ninho do Pássaro e Cubo d’Água, já virou um passeio obrigatório para quem visita a capital chinesa e quer ver algo além da Cidade Proibida. O centro olímpico de Park City, nos Estados Unidos, usado nos Jogos de Inverno de 2002, agregou ao destino de neve uma pista de bobsled, aquele trenó de alta velocidade, transformado em uma atração radical, quase uma montanha-russa com DNA esportivo. Se os estádios construídos para a Olimpíada de Atenas, em 2004, acabaram virando onerosos elefantes brancos, o mesmo não se pode dizer das linhas de metrô e da revitalização do aeroporto, que são muito úteis até hoje.A seguir, destacamos dez antigas cidades-sede, onde o espírito olímpico virou concorridas atrações turísticas.Europa: exemplos positivos e negativos
O tobogã do AcelorMittal Orbit é a mais nova atração do Queen Elizabeth Olympic Park / Foto: Divulgação
LONDRES: O PARQUE DA RAINHA ABERTO AOS SÚDITOSSímbolo da revitalização do East End, a degrada área mais ao leste de Londres, o Queen Elizabeth Olympic Park é certamente o legado mais visível da Olimpíada de 2012. Combinando arenas esportivas e opções de lazer, o espaço vem sendo entregue aos poucos à população, com novas áreas liberadas a cada ano. Construído entre os bairros de Stratford, Bow, Leyton e Hackney Wick, o parque pode ser acessado por duas estações dos trens DLR, Stratford e Stratford International.A novidade para este verão é The Slide, o tobogã de 178 metros de comprimento (o maior e mais longo do mundo) que serpenteia ao redor da torre AcelorMittal Orbit, um dos ícones do parque, numa descida de, em média, 40 segundos. Projetada pelo artista plástico Anish Kapoor, a estrutura de metal vermelha tem 114 metros de altura, um observatório e um restaurante a 80 metros do chão. O ingresso para torre e tobogã custa 15 libras (R$ 65), e 10 para crianças (arcelormittalorbit.com).Outro programa interessante é o passeio de barco pelo Rio Lea, que corta o parque (9 libras para adultos, 4 para crianças). Além de mostrar ângulos diferentes para as arenas olímpicas, com destaque para o velódromo VeloPark, o tour de 45 minutos conta como este e outros rios foram importantes para a indústria de Londres no século XIX.Com 2,5 quilômetros quadrados de área verde, o parque tem ainda trilhas, ciclovias, jardins e amplos gramados (fotos). As peças de arte também estão entre os destaques. Além da já citada torre de Kapoor (que os londrinos apelidaram de Hubble Bubble Pipe, ou narguilê), um ponto bastante acionado por amantes do selfie é a escultura RUN, três grandes letras espelhadas, que se confundem com a paisagem, da artista plástica Monica Bonvicini. As esferas presas a cabos de aço sobre a via em frente ao restaurante The Podium também chamam a atenção.E o parque dá chances ao visitante de praticar esportes em locais por onde passaram alguns dos maiores atletas. É o caso do Centro Aquático. Para nadar na mesma piscina em que Michael Phelps conquistou quatro medalhas de ouro e duas de prata, se tornando, então, o maior medalhista olímpico da História, é fácil. Custa apenas 5,20 libras por dia, no horário de pico (londonaquaticscentre.org).BARCELONA: REVITALIZAÇÃO DA ORLA À COLINA Toda cidade que se candidata a sediar uma Olimpíada tem pelo menos um modelo comum. Todas querem ser Barcelona. Ao caminhar pela orla da capital catalã ou chegar ao topo da colina Montjuïc, dá para entender o motivo. A transformação pela qual passou a cidade espanhola antes e depois dos Jogos de 1992 é mesmo um exemplo a seguir.O legado mais evidente está no alto de Montjuïc, nos limites da área antiga da cidade e de frente para o porto de Barcelona. Os principais equipamentos esportivos estão no Anillo Olímpico (ou Anella Olímpica, em catalão). O coração do complexo, o Estádio Olímpico Lluís Companys, construído para a Feira Mundial de 1929 e reformado para 1992, chama a atenção pela arquitetura rebuscada, típica da cidade. Sem uso esportivo regular, ele é aberto à visitação (e é grátis).Uma curiosidade: o estádio seria a sede principal da Olimpíada do Povo, um evento paralelo aos Jogos de 1936, em Berilm, em protesto contra o nazifascismo. O que nunca aconteceu, graças à Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939).Do outro lado da rua, está o Museu Olímpic i de l’Esport Joan Antoni Samaranch (entrada a € 5,10. museuolimpicbcn.cat), com bom acervo sobre o evento e esporte em geral.A fachada principal do estádio dá para o amplo largo com espelhos d’água, gramados e um jardim, onde estão o centro aquático (lugar em que Gustavo Borges ganhou a prata nos 100 metros livre) e o Palau Sant Jordi (palco do inédito ouro do time masculino de vôlei brasileiro). Bem ao lado do ginásio, a Torre de Comunicação (foto), projetada pelo arquiteto Santiago Calatrava, se destaca na paisagem.A localização do Anillo Olímpico não podia ser melhor. Nos arredores ficam alguns dos melhores museus da cidade, como o Nacional de Arte da Catalunha (€ 12), a Fundació Joan Miró (€ 12), e o Castillo de Montjuïc (€ 5), uma antiga fortaleza do século XVII com uma das melhores vistas para a cidade.O legado olímpico também pode ser notado na orla de Barcelona. O Port Vell (“porto antigo”), em frente à Rambla, foi totalmente revitalizado, assim como o calçadão da popular praia de Barceloneta, o que permitiu a chegada, posterior, de empreendimentos como o W Hotel, o famoso prédio em forma de vela. O distrito de San Martí, um bairro decadente, recebeu a Vila Olímpica e hoje tem belos jardins e parques à beira-mar.ATENAS: O LEGADO MAIS ANTIGO DE TODOSAssim como Barcelona, Atenas é outro exemplo sempre observado por futuras cidades-sede. Mas pelos motivos opostos. As arenas modernas viraram elefantes brancos e os Jogos de 2004 deixaram, para a Grécia e sua capital, dívidas que se arrastam até hoje. Mas houve heranças positivas, como no sistema de transporte público — com metrô e bondes — totalmente reformado e ampliado. A extensão da linha 3 (azul) do metrô até o aeroporto internacional, por exemplo, foi inaugurada em 2004 e continua muito útil aos visitantes. E para quem gosta de maratonas de compras, o shopping Golden Hall, no prédio que serviu de Centro de Mídia durante os Jogos, é um bom programa.Se estádios, ginásios e piscinas construídos para a edição de 2004 não viraram grandes atrações turísticas para a cidade, o mesmo não se pode dizer do legado olímpico mais antigo do mundo. O Estádio Panatenaico ajuda a explicar como surgiram os Jogos Olímpicos. Próximo a ícones como Partenon e Acrópole, o estádio surgiu em 330 a.C., como pista de corrida para os Jogos Panatenaicos (evento de quatro em quatro anos com festas, cerimônias religiosas e competições esportivas). Foi reconstruído todo em mármore no ano 144, com capacidade para 50 mil pessoas. Em 1859, 1870 e 1875 sediou competições que remetiam às antigas olimpíadas. E, em 1896 foi o grande palco para a primeira Olimpíada moderna. Os brasileiros não gostam de lembrar, mas foi lá que aconteceu a chegada da maratona em 2004, quando Vanderlei Cordeiro de Lima perdeu o ouro e ganhou a eternidade, ao ser agarrado por um padre irlandês na reta final. Toda essa história é contada no museu que funciona no estádio (entrada a € 5. panathenaicstadium.gr).A história das olimpíadas também vive, em Olímpia, a quatro horas da capital. Foi nesse santuário que os Jogos foram realizados de 776 a.C a 394 d.C. As ruínas dos locais de competição e de treinamento (foto) ajudam o visitante a imaginar como era esse evento em seu princípio. A entrada para as ruínas e os museus sobre a história do santuário e dos Jogos custa € 12 (odysseus.culture.gr).BERLIM: FUTEBOL E HISTÓRIA
Vista aérea do Estádio Olímpico de Berlim, construído para os Jogos de 1936 e palco da final da Copa do Mundo de 2006 - Fabrizio Bensch / Reuters
O partido nazista esperava comprovar suas teses de supremacia racial nos Jogos de 1936, em Berlim. Mas o que acabou entrando para a História foi a performance de Jesse Owens, americano e negro, no atletismo, ganhando quatro medalhas de ouro em pleno Estádio Olímpico. A arena, construída entre 1934 e 1936, continua sendo o principal palco esportivo na capital alemã, e atrai visitantes de todo o mundo justamente por manter o projeto original, mesmo passando por diversas reformas (foi palco da final da Copa do Mundo de 2006, por exemplo).A abertura de seu anel superior, atrás de um dos gols, dando passagem à pira olímpica, é seu traço mais particular. A pira, aliás, foi acesa pelo fogo olímpico que, pela primeira vez, fez a peregrinação saindo de Atenas até a sede dos Jogos. O tour pelo estádio custa € 7. Mais informações pelo site olympiastadion-berlin.de.China, Austrália e EUASYDNEY: UM NOVO (E ECOLÓGICO) BAIRRO
Jantar romântico no Aqua Dining, aberto logo após os Jogos de 2000, em Sydney - Stephen Ward / Destination NSW / Divulgação
A região em torno do Sydney Harbour é a que concentra as atrações mais conhecidas da maior cidade australiana. Ali estão a Opera House, a Sydney Harbour Bridge, o charmoso bairro The Rocks, entre outros. Mas quem quiser descobrir um lado menos óbvio pode rumar a oeste, sentido Sydney Olympic Park, palco dos Jogos de 2000. E de quebra conhecer o novo bairro planejado e ecológico The Park, ao redor do complexo.A principal construção é o estádio olímpico, hoje ANZ Stadium, que recebe jogos de futebol e rúgbi e até rodeios (foto), além de apresentações musicais. Há dois tipos de tours: um mais tradicional, pelos bastidores (28,50 dólares australianos, ou R$ 70, anzstadium.com.au), e outro mais radical, por passarelas a 45 metros de altura junto à cobertura (AU$ 49, ou R$ 120). Também é possível visitar, e nadar, no centro aquático (AU$ 16, ou R$ 39. aquaticcentre.com.au), onde há também uma área exclusiva para crianças.Outro destaque do parque são as áreas verdes, como Bicentennial Park, Blaxland Riverside Park e Cathy Freeman Park, esta com interessantes obras de arte, como o Olympic Cauldron, fonte feita a partir da pira olímpica acesa pela corredora australiana de origem aborígene Cathy Freeman. É possível alugar bicicleta para percorrer os 35 quilômetros de sua ciclovia (a partir de AU$ 15, ou R$ 36. bikehiresydneyolympicpark.com.au).De volta ao porto, um jantar no Aqua Dining, restaurante colado à North Sydney Olympic Pool, a famosa piscina de 1936, sob a Harbour Bridge, encerra com medalha de ouro o passeio olímpico.PEQUIM: NINHOS E CUBOS DA ARQUITETURA CONTEMPORÂNEAA Olimpíada de Pequim, em 2008, foi a mais cara até então, com um custo de cerca de US$ 42 bilhões. Ao ver de perto o Estádio Nacional e o Centro Aquático Nacional, no Parque Olímpico, dá para imaginar como tanto dinheiro foi gasto. Apelidadas de Ninho do Pássaro e Cubo d’Água, as construções atraem visitantes mesmo quando não recebem eventos esportivos (bem raros, na verdade).O Cubo d’Água é o que tem a maior utilidade de lazer. O complexo, que viu Cesar Cielo ganhar a primeira (e até agora, a única) medalha de ouro para a natação brasileira, hoje abriga um parque aquático (30 yuans, cerca de R$ 15. water-cube.com). Já o Ninho do Pássaro tem tours guiados pelo interior do estádio (50 yuans, ou R$ 25. n-s.cn), que dão acesso a um museu sobre os Jogos de 2008 e à pista, onde Maurren Maggi conquistou a igualmente histórica medalha de ouro no salto em distância.ATLANTA: UMA PRAÇA PARA TODOSEstá em uma conexão longa no aeroporto de Atlanta e quer fazer um programa diferente? Pegue o metrô até a estação Peachtree Center (o trajeto dura meia hora) e caminhe até o Centennial Park, no coração da cidade americana, criado para ser o coração da Olimpíada de 1996. Seu gramado só não é mais convidativo que a Fountain of Rings, conjunto de fontes que formam os anéis olímpicos com movimentos sincronizados e iluminação especial.Ao redor do parque, estão ainda as principais atrações turísticas da cidade: o Center for Civil and Human Rights; o Georgia Aquarium, um dos maiores do mundo; o World of Coca-Cola, museu interativo dedicado à bebida; os estúdios da CNN; e o Georgia Dome, palco do basquete nos jogos. O complexo pode ser visto melhor de cima, do alto da roda-gigante SkyView Atlanta, com 42 cabines e 61 metros de altura (centennialpark.com).