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Aposentadoria antecipada?

Caso Tifanny: entenda a polêmica que pode acabar a carreira da oposta do Osasco às vésperas da Superliga

CBV impede a oposta do Osasco de disputar a temporada 2026/27 da Superliga; Justiça autoriza participação

Lucas Sales

Lucas Sales •

- há XX semanas
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A oposta Tifanny Abreu vive um dos momentos mais dramáticos de sua trajetória profissional. Aos 41 anos, a atleta, que atua no vôlei feminino brasileiro desde 2017 e defende o Osasco São Cristóvão Saúde desde 2021, corre o risco de encerrar antes do tempo em que desejava concluir. Ela foi a primeira atleta trans a vencer o torneio nacional na história.


					Caso Tifanny: entenda a polêmica que pode acabar a carreira da oposta do Osasco às vésperas da Superliga
Quem é Tiffany, primeira mulher trans campeã da Superliga. Foto: Carol/Osasco

O motivo é a nova política de elegibilidade adotada pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), anunciada em 14 de agosto de 2026, que altera os critérios de participação nas competições femininas organizadas pela entidade.

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A situação ganhou repercussão nacional porque a mudança ocorreu depois de Tifanny já integrar o planejamento do Osasco para a temporada. A jogadora tem contrato renovado, participa dos treinamentos e chegou a atuar pelo clube na conquista do Campeonato Paulista. Com a nova norma, porém, a participação dela na Superliga 2026/27 passou a ser impedida pelos critérios estabelecidos pela confederação.

O impasse não envolve apenas a possibilidade de a atleta disputar mais um campeonato. Coloca em discussão os direitos profissionais de uma jogadora que já possuía vínculo com um clube e a possibilidade de contestar judicialmente uma regra de elegibilidade.

Na noite desta sexta-feira (17), a defesa de Tifanny Abreu conseguiu uma liminar provisória que libera a jogadora para disputar a Superliga nesta temporada. O imbróglio judicial ainda traz que caso a atleta seja proibida, a Confederação Brasileira de Voleibol poderá ser multada em R$ 5 mil por partida, como consta no documento.

O que mudou na regra da CBV?

A decisão anunciada em agosto estabeleceu que a CBV passaria a seguir os critérios da Política de Proteção da Categoria Feminina do Comitê Olímpico Internacional (COI), alinhando-se também às diretrizes internacionais adotadas para o voleibol. A nova política prevê a triagem genética do gene SRY, associado ao desenvolvimento sexual masculino, como parte do processo de elegibilidade para as competições femininas.

Na prática, a regra restringe a participação na categoria feminina às atletas consideradas elegíveis pelos novos critérios. A exigência alcança a Superliga A e B na temporada 2026/27, além de outras competições nacionais organizadas pela CBV. Sem a comprovação exigida, a atleta não pode participar desses torneios.


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CBV impede a oposta do Osasco de disputar a temporada 2026/27 da Superliga; clube tenta negociar solução e atleta recorre à Justiça. Foto: Reprodução/ Redes sociais

Osasco tenta uma saída e critica a falta de consulta

O Osasco manifestou apoio à jogadora logo após o anúncio da nova política. Através de um comunicado oficial, o clube afirmou ter sido surpreendido pela decisão e ressaltou que a norma foi elaborada sem consulta prévia.

A preocupação do clube tem também uma dimensão contratual e esportiva, e o time de Osasco passou a buscar uma solução que permita à atleta concluir o período para o qual foi contratada, sem abrir mão da possibilidade de questionar os efeitos da nova regulamentação.

O clube tenta negociar com a CBV uma regra de transição que permita a participação da oposta na Superliga 2026/27 de forma amigável, sem a necessidade de uma "batalha judicial". A proposta do clube paulista busca conciliar a aplicação da nova política com a situação de uma atleta cujo contrato e planejamento esportivo antecederam a mudança. A CBV, por sua vez, não demonstrou interesse.


					Caso Tifanny: entenda a polêmica que pode acabar a carreira da oposta do Osasco às vésperas da Superliga
CBV impede a oposta do Osasco de disputar a temporada 2026/27 da Superliga; clube tenta negociar solução e atleta recorre à Justiça. Foto: Reprodução/ Redes sociais

O que diz o Direito: Tiffany pode recorrer à Justiça?

O caso coloca em confronto dois princípios importantes: a autonomia das entidades esportivas para estabelecer regras de suas competições e a obrigação de respeitar os direitos fundamentais, os contratos e os limites legais aplicáveis no Brasil.

A Constituição Federal, em seu artigo 217, reconhece a autonomia das entidades desportivas quanto à sua organização e funcionamento. Isso dá à CBV espaço para regulamentar suas competições, mas não significa que qualquer decisão esteja automaticamente protegida contra contestação judicial.

"A confederação pode ditar regra sim. A questão, na verdade, é se pode aplicar a essa atleta neste momento e nesta maneira. Porque a constituição traz garantias para as entidades desportivas de autonomia e organização, além do funcionamento [...] mas há uma ironia, nesse momento. Por quê? Em fevereiro, no caso de Londrina [quando Tiffany havia sido barrada de uma competição nacional], a ministra Cármen Lúcia, invoca o julgamento da ADI 7580, pra ressaltar essa autonomia das organizações esportivas pra se auto governar e se autonormatizar, justamente a pedido da própria confederação em favor de Tiffany. É o princípio que ela protegeu em fevereiro. Hoje é invocado contra ela mesma. Então essa autonomia não é soberania. Ela existe porém não é soberana", dividiu a especialista Juliana Camões, Advogada Especialista em Direito Desportivo.

A especialista pondera que liminar definitiva favorável a Tifanny pode não ser autorizada com celeridade.

"O judiciário não tem uma expertise tão grande nas questões relacionadas à parte esportiva, infelizmente. Acho que merecia mais dedicação, mas ela [a liminar] é possível. Existe um perigo de demora, principalmente quando se tem um limbo de não entender ou se tem algum assunto que ele seja muito polêmico midiático, há uma tendência do não encorajamento de decisões, então ele pode se estender, com uma demora que ela não é não atenderia de forma suficiente. Essa liminar pode ser provocada, mas não é uma certeza de acontecer", pontuou Juliana Camões.

O que diz Luizomar de Moura, técnico de Osasco?

O técnico Luizomar de Moura criticou a maneira como a decisão foi comunicada e defendeu que o clube continue buscando meios para contar com Tiffany. Em entrevista recente, o treinador afirmou que foi surpreendido pela notícia e destacou que a atleta já estava sob contrato.

“Faltou um pouco de zelo, e o momento foi muito ruim. Temos que lutar para que ela esteja em quadra e defenda nossa equipe nesta temporada”, destacou Luizomar no dia 1º de outubro durante o lançamento da Superliga Feminina 2026/27.

O posicionamento da CBV: alinhamento com as regras internacionais

A Confederação Brasileira de Voleibol sustenta que a decisão decorre do alinhamento com as diretrizes do COI e de outras entidades internacionais do esporte. O presidente da CBV, Radamés Lattari, reafirmou essa posição durante o lançamento da Superliga, em 1º de outubro, e descartou a possibilidade de a entidade alterar sua orientação apenas em razão da controvérsia envolvendo Tiffany.

Ao justificar a mudança, Lattari afirmou que a confederação vinha seguindo os critérios internacionais anteriores e que passou a adotar a nova orientação depois que o COI alterou sua política de elegibilidade. O dirigente também negou que a decisão tenha sido motivada por pressões externas.


					Caso Tifanny: entenda a polêmica que pode acabar a carreira da oposta do Osasco às vésperas da Superliga
CBV impede a oposta do Osasco de disputar a temporada 2026/27 da Superliga; clube tenta negociar solução e atleta recorre à Justiça. Foto: Carol/Osasco

A CBV publicou uma nota oficial após a Justiça conceder a liminar e reafirmou que a oposta está liberada para jogar em caráter "excepcional e provisório". No comunicado, a CBV esclarece que "apresentará os recursos cabíveis e adotará as medidas necessárias para a reversão da decisão".

"A CBV apresentará os recursos cabíveis e adotará as medidas necessárias para a reversão da decisão. A CBV reitera seu compromisso com o respeito e a dignidade de todas as atletas e repudia qualquer manifestação discriminatória", declarou o comunicado.

Tiffany não anunciou aposentadoria, mas teme perder a despedida que planejou

A própria jogadora deixou claro que não pretende aceitar passivamente a possibilidade de ser afastada das quadras. No lançamento da Superliga, em 1º de outubro, Tiffany falou do desejo de concluir a carreira em quadra, depois de anos dedicados ao voleibol feminino brasileiro.

“Quero terminar a minha carreira de atleta com o pé direito, digna de uma aposentadoria”, afirmou. “Se não for uma boa conversa, de bom acordo, que seja na Justiça”, declarou, ao defender o direito de continuar jogando e de decidir como deseja encerrar sua história no esporte.

Não há indicação de que a norma da CBV determine que Tiffany se aposente. Também não é possível afirmar que o contrato com o Osasco será automaticamente rescindido ou que a jogadora terá direito garantido a uma indenização.

Vale destacar que a temporada feminina estreia neste sábado (17), e o caso de Tiffany coloca o Osasco diante de uma incerteza importante às vésperas da competição.

Assista ao "De Hoje a Oito", podcast de entretenimento do Ibahia:

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